sábado, 30 de junho de 2012

Nostalgias

Outrora, índios senhores das matas
Em noites de prateado luar
Ao pé de lendárias cascatas
Ficavam à escuta dos guarás a uivar
Inimagináveis belezas fulgurantes
Mulheres morenas com lábios de mel
Sensuais, envolventes, insinuantes
Senhoras divinas com seus amantes
Vivendo nas matas, livres, estonteantes
Até que um dia maldito, um tropel
Cavalos, cavaleiros e mil demônios
Todos amargos com gosto de fel
Chegaram ao paraíso
Que enorme prejuizo
Difamaram aquele santuário
Como irracionais tudo destruiram
Que grande crime fizeram
Não se ouviu mais os guarás
Os papagaios, as gralhas azuis, os urus
O frescor das matas e a sua botânica
Vítimas da ação satânica
Desaparceram
Sumiram
Somente restou
Terra desnuda
Empobrecida
Ressequida
Sem valor
Sem amor
Sem vida.

Poesia criada em outubro de 1995, Arroio do Meio.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Mundo Real

Senhores abastados
Homens enclausurados
Prisioneiros do verbo TER
Homens limitados
De horizontes enlameados
De espaços demarcados
Com suas ricas mulheres
Cobertas por jóias e celulite
Intragáveis, despencadas, pretensiosas
De nariz empinado, maliciosas
No mais alto grau da fina elite.

Homens inteligentes
E suas mulheres atraentes
Aparecendo em alto estilo
Prisioneiros do verbo SER
Querendo mais, e mais poder
Como se sua espécie fosse eterna
Andando em seus carros fechados
Vidros escuros "para não ver"
O mundo ao seu redor
A miséria, o sofrimento, a dor
A desgraça, o desespero, o horror
E... a cara do mundo infame.

Ambos transgridem a Lei de Deus
Escarram nos semelhantes seus
Depois pedem clemência
Se dizem cheios de amor
Desde que... as mãos dos excluídos
Não maculem o verbo SER
E não subtraiam do verbo TER
Afinal...
Este é um mundo animal
Este é um mundo real.

Poesia criada em 3 de outubro de 1995, Arroio do Meio.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Divagação

No caminho, retratos
Sem vida, abstratos
Desvios adjacentes
Nada convincentes
Pintam à noite
Ocultam a lua
Disseminando incertezas
Ensaiando proezas
Pairando no ar...
E... a brisa morna, pesada
Encharcando a alma
Tirando-lhe a calma
Fazendo-a vagar ao léu
Bem longe do céu
Em busca de quem
Em busca de alguém
Que sirva de apoio
Que seque uma lágrima
Que traga consolo
Que diga amém
Que faça afagos
Sem causar estragos
Que faça adormecer
Estendendo o sentido de ser
Feliz
E... nada mais.

Poesia criada em setembro de 1995, Arroio do Meio.

Grande Homem

O grande homem vivia isolado
As grades da altura dos céus
Tão pontiagudas, espetavamos olhos de Deus
Desconhecia os semelhantes seus
Pensava ter vida eterna, coitado
Miserável, mesquinho, cercado
Amarrado à sua rica mansão
Não tinha ninguém por irmão
Em suas cobranças era sarcástico
Sem piedade, sem dor, fantástico
Desconhecia o sentido da palavra "amor"
Era único, absoluto, independente
Sabedor de tudo, onipotente
Mas...
Um dia o sino da igreja badalou
O grande homem tombou
Dele ninguém lembrou
A não ser pelo que cobrou
Ao cemitério alguns o levaram
Em seu túmulo não choraram
Com cimento seu corpo lacraram
E seu dinheiro também...
Nem uma flor
Nem uma dor
Nenhum amor
E... tudo passou.

Poesia criada em agosto de 1995, Arroio do Meio.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Vida Nascendo... Vida Morrendo...

VIDA NASCENDO

Num momento de amor
No desabrochar da flor
No amanhecer do dia
Numa gota de orvalho
No olhar de Maria
No caminho, no atalho
Num casebre qualquer
No fundo da mata
Muito além da cascata
Onde canta a cotovia
Num berço de palha
Num Jesus menino rei
Numa lição de humildade
Dizendo à humanidade
Que a maior felicidade
É estar bem com a consciência
É estar de bem com Deus.

VIDA MORRENDO

Na mata incendiada
Na terra inundada
Na poluição ambiental
Num quarto de hospital
No fim da esperança
No desajuste social
Num desrespeito
Numa grosseria
Numa mente doentia
Numa ambição desenfreada
Num país falido
Num povo traído
Num filho desnutrido
Numa corrupção total
Numa justiça parcial
Na falta de um Deus
Na visão tapada dos ateus
Numa porfunda dor
Na falta de amor
No fim da noite
após... um longo açoite.

Poesia criada em agosto de 1995, Arroio do Meio

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Detalhes

Juizes decidem jogos, balbúrdias
Senhores oprimem fracos, distúrbios
A roda da vida, o circo do fel
Confusões, incertezas, Babel
Na calçada um mendigo imundo
No andar logo acima, o dono do mundo
Um mendigando envolto em fezes
Outro esbelto, bebidas leves
Um terceiro passa apressado
Atrás, nervoso, anda o credor
Uma prostituta cheia de amor
Um gigolô explorando o labor
As rezas saindo da igreja, pro céu
No meio do caminhos os anjos as levam
Um santo lhes entrega um troféu
No jardim as rosas já murcham
As formigas suas pétalas carregam
Um negociante, quebrado, sem rumo
Procura uma corda para se enforcar
A corda ele não pagou
Por isso o homem da lei julgou
E como sentença lhe dá
Vinte arrobas de brasas, a arder
Pra se queimar
no fundo do inferno
até cinzas virar...

Poesia criada em 13 de julho de 1995, Arroio do Meio.

sábado, 23 de junho de 2012

Meditação

Chuva insistente
Calçadas molhadas
Olhar desolado
A espera do sol
Pessoas caminhando
Sapatos molhados
Cachorro pulguento
Olhar desconfiado
Todo enrolado
Debaixo da escada
Goteiras caindo
Janelas fechadas
A lenha queimando
Fumaça cheirando
Cozinha esquentando
Chaleira chiando
Pipoca estourando
Seu doce sabor
Aconchegante calor
Clima porpício pro amor
A noite chegando
O aguaceiro seguindo
Batendo no zinco
As pessoas dormindo
O cachorro latindo
Quabrando o silêncio
A paz profanando
Em sua vida de cão
Mas... o tempo segue
E... a vida também.

Poesia criada em julho de 1995, Arroio do Meio.